domingo, 12 de abril de 2009



Tecnologias Educacionais Inovadoras Andragógicas (TEIA)


Ronaldo Mota





Para que este Blog?

Este Blog pretende constituir-se em mais um instrumento que estimule a discussão de abordagens, estratégias e métodos educacionais inovadores que possam representar importantes opções de processos ensino-aprendizagem.

É preciso que esses métodos sejam plenamente compatíveis com o mundo contemporâneo de educação permanente, preparando profissionais e cidadãos em sintonia com educação continuada ao longo da vida.

Sem a pretensão de opiniões previamente estabelecidas ou enfoques definitivos, alguns balizamentos são características básicas das propostas aqui apresentadas. Uma delas diz respeito às concepções andragógicas, associadas à necessidade de repensar nossas metodologias educacionais à luz do fato que boa parte de nossos estudantes da educação superior brasileira está alterando rapidamente seu perfil de faixa etária, origem sócio-econômica e suas expectativas.

Destacando, no entanto, que boa parte do que aqui é tratado tem valores universais, sendo adequado (ou pretendendo ser) para qualquer faixa de idade ou de nível educacional, sem exclusão a priori.

O que é, afinal, andragogia?

Andragogia por tratar-se de conceito educacional diferenciado, especialmente voltado à educação de adultos, permite oportunizar experiências educacionais inovadoras. Nessas abordagens, os estudantes quais têm um papel mais ativo em seus processos de aprendizagem, em coerência com as perspectivas de formação continuada e ao longo da vida, superando o período de educação escolar tradicional.

O centro do processo ensino-aprendizagem tradicional está na atuação do professor e calcado na concepção de transferência simples de conhecimento. Abordagens educacionais baseadas em inovadoras metodologias buscam centrar na aprendizagem do estudante e nas relações que ele estabelecia com o seu entorno, tanto as pessoas, as múltiplas relações estabelecidas, bem como suas experiências com a natureza que o cerca.

O que é, afinal, Método Keller?

Uma dos métodos desenvolvidos nesta concepção é o denominado Método Keller ou Processo de Instrução Personalizada, o qual faz uso de uma estratégia no processo ensino-aprendizagem que é diferente substancialmente das metodologias tradicionais, as quais são baseadas tipicamente em aulas expositivas como meio primário segundo o qual os estudantes tomam contato com a matéria.

Uma limitação percebida na aplicação do Método Keller ao final do século passado foi exatamente quanto à disponibilização adequada do material prévio ao estudante. Uma nova base tecnológica, propiciada pelos avanços recentes nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), permite um novo momento e novas ferramentas. Assim, uma releitura positiva do tradicional Método Keller, à luz da incorporação efetiva das tecnologias inovadoras, é possível e imprescindível ser realizada.

Assim, neste Blog é apresentado um conjunto de abordagens, estratégias e métodos que podem representar importantes opções plenamente compatíveis com o mundo contemporâneo de educação permanente, preparando cidadãos em sintonia com educação continuada ao longo da vida.
Keller + TICs: Uma Abordagem Andragógica

Foi com Malcolm Knowles que se configurou, na década de 1970, a noção de andragogia como a arte e a ciência de orientar adultos em seu processo de aprendizagem fazendo intenso uso de suas experiências de vida. Um aspecto importante da andragogia, mais relevante do que a separação em faixas etárias, é a concepção de que aprendemos sempre ao longo da vida e a ênfase no aprender fazendo.

Nesse sentido, a andragogia, enquanto estímulo ao aprender a aprender, não exclui nem jovens ou crianças, desde que os conteúdos e abordagens lhes sejam apropriados.

Cursos (ou disciplinas) baseados no Método Keller [1] fazem uso de uma estratégia no processo ensino-aprendizagem que é muito diferente das metodologias tradicionais, as quais são baseadas tipicamente em aulas expositivas como meio primário segundo o qual os estudantes tomam contato com a matéria.

Nas abordagens usuais, professores falam e estudantes ouvem e tomam nota e, sendo bons alunos (quando são!), estudam depois. Livros textos e outras ferramentas de apoio ao aprendizado são utilizados (quando são!) como complementares às aulas, mas sempre depois, nunca (ou muito raramente) antes.

Os processos avaliativos tradicionais ocorrem, em geral, muitos dias, semanas, às vezes meses, após os alunos terem tomado nota das aulas expositivas. Não raro, esse exame constitui-se na oportunidade única, ou quase, para o aluno demonstrar nível de aprendizagem. Esse modelo reforça muitas deficiências e, infelizmente, não atende mais exigências formativas do mundo contemporâneo.

O Método Keller vai muito além do modelo aula-anota-estuda-testa. Na nova estratégia, onde se estimula o aprender a aprender, a aprendizagem inclui respeito ao ritmo dos estudantes, os quais são testados sobre as informações básicas referente às aulas antes delas, quantas vezes for necessário. Quem realiza essa etapa (habilitar à próxima etapa) é o orientador acadêmico, o qual determina o momento adequado para o estudante aproveitar ao máximo a aula do professor responsável pela disciplina.

A aula expositiva muda de característica, devendo o professor saber que fala para iniciados, priorizando reforço de conceitos já preliminarmente assimilados, promovendo atividades laboratoriais/experimentais, desafiando os estudantes para um debate mais profundo e participativo. Enfim, uma nova dinâmica de aula que exige muito mais docente, alterando seu papel, enaltecendo muito mais a figura do mestre.

Uma limitação percebida na aplicação do Método Keller ao final do século passado foi exatamente quanto à disponibilização adequada do material prévio ao estudante. Uma nova base tecnológica, propiciada pelos avanços recentes nas TICs, permite um novo momento e novas ferramentas. Assim, uma releitura positiva do tradicional Método Keller, à luz da incorporação efetiva das TICs, é possível e imprescindível ser realizada.

O Método “Keller + TICs” representa, portanto, uma importante opção plenamente compatível com o mundo contemporâneo de educação permanente, preparando cidadãos em sintonia com educação continuada ao longo da vida. Apropriado a todas as idades, compatível com uma realidade onde metade dos estudantes universitários tem mais de 25 anos, incorporando abordagens andragógicas (que visam adultos maduros), em contraposição aos métodos pedagógicos (na maioria, supondo crianças menos interessadas) [2].

Ref.:
[1] Fred S. Keller. Goodbye, teacher ... J. of Applied Behavioral Analysis, 1(1):79-89, Spring 1968; J. Gilmour Sherman and Robert S. Ruskin. The Personalized System of Instruction. Educational Technology Publications, Englewood Cliffs, NJ, 1978. Vol. 13 in The Instructional Design Library, series ed. Danny G. Langdon; J. Gilmour Sherman, Robert S. Ruskin, and George B. Semb, editors. The Personalized System of Instruction: 48 seminal papers. TRI Publications, Lawrence, Kansas, 1982.
[2] Ronaldo Mota. A Universidade Aberta do Brasil in Educação a Distância, O Estado da Arte, Org. F. M. Litto e M. Formiga, Cap. 40: 290-296, Pearson Prentice Hall, São Paulo, 008.

Detalhando mais sobre Andragogia

A vantagem de se tratar um neologismo é que o conceito associado à palavra pode ser construído contemporaneamente, levando-se em conta contextualização à dinâmica do mundo atual. Andragogia constitui um paradigma novo na medida em que a base para sua conceituação ainda recebe novas compreensões, em que pese sua história não tão recente assim.

A pedagogia (do grego paidós – criança – e agogus – guiar, conduzir, educar), o termo vem das práticas no século VII na Europa referindo-se essencialmente ao educando, criança ou jovem, estando fortemente associado ao que era ministrado no ensino religioso em catedrais e escolas monásticas. O arcabouço de então serviu de base para a organização educacional formal contemporânea.

Muito embora o termo andragogia (derivado de andros, de homem, genericamente, adulto) tenha sido utilizado pela primeira vez por Alexander Kapp, somente em 1921 que o Professor Rosenstock utilizou o termo no significado mais estrito de educação para adultos. Em seguida, em 1926, Linderman tratou mais especificamente do currículo considerando-o como decorrente das necessidades do aprendiz, sendo sua experiência a fonte de maior valor na educação [1].

Por um lado, andragogia tem sido apresentada a partir de diferentes noções e diversas abordagens há mais de dois séculos. O termo “andragogia” foi formulado originalmente por Alexander Kapp, professor alemão, em 1833 [2]. Em sua formulação inicial, ele faz uma descrição tendo como origem e pressupostos de seus pensamentos os elementos da teoria educacional presentes em Platão e suas experiências próprias na Academia.

Na história mais recente do século XX, particularmente na Grã-Bretanha e na América do Norte, a andragogia tem sido associada mais claramente ao conceito de educação de adultos através dos trabalhos de Malcolm Knowles [3]. Antecedendo Knowles, em 1921, Rosenstock escreveu um artigo no qual defendia a tese de que a educação dirigida a adultos demandaria professores especiais, métodos e filosofias próprios, tendo ele utilizado o termo andragogia para se referir a todos esses requisitos no seu conjunto [4].

Nesse aspecto, deve ficar bem evidente que a andragogia não se aplicaria apenas à educação de jovens e adultos definida na LDB, mas a todos os processos educacionais que envolvam adultos, sejam eles alfabetizados ou não.

No entanto, em que pesem os inegáveis méritos nas teorias dos precursores e de seus contemporâneos, o campo da educação de adultos está de forma especial intrinsecamente ligado aos trabalhos de Malcon Knowles. O que caracteriza a abordagem de Knowles para andragogia é que ele construiu sua teoria a partir de um modelo para aprendizagem de adultos, modelo este ancorado nas características especiais evidenciadas por aprendizes adultos e com certo grau de maturidade [4].

Outra característica da abordagem de Knowles é que ele fez uso intensivo do modelo de relações derivadas de psicologias clínicas humanísticas e, em particular, da facilitação da aprendizagem decorrente de características comportamentais próprias do aprendiz mais maduro, seja no que concerne a identificar suas necessidades ou no conjunto de objetivos específicos.

Para Knowles, em resumo, andragogia está associada à pelo menos cinco pressupostos básicos, que definem suas características e a diferenciam da pedagogia. São eles:
1. Auto-conceito: Uma pessoa madura e auto-direcionada apresenta, em geral, capacidade de estabelecer auto-conceitos privilegiada em comparação a um indivíduo com uma personalidade menos madura e menos auto-direcionada. Aqui é preciso destacar que tal afirmativa não implica subtrair a possibilidade de crianças demonstrarem elementos de auto-direcionamento. Pelo contrário, como ressaltado por alguns autores [5], em certos contextos, a aprendizagem para crianças tem características de naturalidade e espontaneidade que se confundem, corretamente, com auto-direcionamento.
2. Experiência: Uma pessoa madura acumula um reservatório de experiências que, potencialmente, pode transformar-se em fonte especial de aprendizado crescente.
3. Preparação ao aprendizado: O aprendizado, no qual se orienta a partir de tarefas associadas aos papéis sociais efetivamente desenvolvidos pelos aprendizes, permite processos especiais que facilitam sobremaneira sua preparação.
4. Orientação ao aprendizado. Uma pessoa madura apresenta uma especial perspectiva em termos de aplicação potencial dos conhecimentos em comparação a uma outra cuja aplicação se caracteriza principalmente pela generalidade, permitindo à primeira um enfoque centrado em problemas, enquanto que, para a segunda, em geral, o centro é principalmente o tema em abstrato.
5. Motivação para aprender. A motivação principal para aprender em uma pessoa madura é especialmente interna, fruto de suas próprias reflexões e conclusões.

Ref.:
[1] Ronaldo Mota. A Universidade Aberta do Brasil in Educação a Distância, O Estado da Arte, Org. F. M. Litto e M. Formiga, Cap. 40: 290-296, Pearson Prentice Hall, São Paulo, 2008; Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, A Universidade Aberta do Brasil in Educação a Distância, O Estado da Arte, Org. F. M. Litto e M. Formiga, Cap. 15: 105-111, Pearson Prentice Hall, São Paulo, 2008.
[2] (Nottingham Andragogy Group 1983: v). Towards a Developmental Theory of Andragogy, Nottingham: University of Nottingham Department of Adult Education. 48 pages; Davenport (1993; 114) 'Is there any way out of the andragogy mess?' em M. Thorpe, R. Edwards and A. Hanson (eds.) Culture and Processes of Adult Learning, London; Routledge. (Publicado pela primeira vez em 1987).
[3] Knowles, M. (1975). Self-Directed Learning. Chicago: Follet; Knowles, M. (1984). The Adult Learner: A Neglected Species (3rd Ed.). Houston, TX: Gulf Publishing; Knowles, M. (1984). Andragogy in Action. San James Fisher and Ronald Podeschi, "From Lindeman to Knowles: A Change in Vision," International Journal of Lifelong Education 8:4, pgs 345-53 (Oct-Dec 1989). Knowles, M. (1980) The Modern Practice of Adult Education. From pedagogy to andragogy (2nd edn). Englewood Cliffs: Prentice Hall/Cambridge. 400 pages; Knowles, M. et al (1984) Andragogy in Action. Applying modern principles of adult education, San Francisco: Jossey Bass. A collection of chapters examining different aspects of Knowles' formulation; Knowles, M. S. (1990) The Adult Learner. A neglected species (4e), Houston: Gulf Publishing. First appeared in 1973. 292 + viii pages. Surveys learning theory, andragogy and human resource development (HRD); Boud, D. et al (1985) Reflection. Turning experience into learning, London: Kogan Page.; Cross, K. P. (1981) Adults as Learners. Increasing participation and facilitating learning (1992 edn.), San Francisco: Jossey-Bass; Dewey, J. (1933) How We Think, New York: D. C. Heath; Hanson, A. (1996) 'The search for separate theories of adult learning: does anyone really need andragogy?' in Edwards, R., Hanson, A., and Raggatt, P. (eds.) Boundaries of Adult Learning. Adult Learners, Education and Training Vol. 1; Humphries, B. (1988) 'Adult learning in social work education: towards liberation or domestication'. Critical Social Policy No. 23 pp.4-21; Kidd, J. R. (1978) How Adults Learn (3rd. edn.), Englewood Cliffs, N.J.:Prentice Hall Regents; Kliebart, H. M. (1987) The Struggle for the American Curriculum 1893-1958, New York : Routledge; Joseph and Judith Davenport, "Knowles or Lindeman: Would the Real Father of American Andragogy Please Stand Up," Lifelong Learning. 9:3, pgs 4-5 (November 1985).
[4] Merriam, S. B. and Caffarella, R. S. (1991; 249) Learning in Adulthood. A comprehensive guide, San Francisco: Jossey-Bass.
[5] Tennant, M. (1988; 21) Psychology and Adult Learning, London: Routledge; Brookfield, S. D. (1986; 93) Understanding and Facilitating Adult Learning. A comprehensive analysis of principles and effective practice, Milton Keynes: Open University Press.

Distinções entre andragogia e pedagogia

É preciso ser muito cuidadoso ao pretender fazer distinções entre andragogia e pedagogia [1], especialmente porque essas separações não são definitivamente claras. Além disso, os exercícios de comparações esquemáticas são, em geral, simplistas e arriscados, quando não equivocados. Mesmo sendo pouco recomendáveis, alguns autores, como, por exemplo, Jarvis [2], a partir das concepções educacionais de Knowles, que assumia andragogia como “educação de iguais”, em contraposição à pedagogia como “educação dos de cima”, ousou apresentar um quadro esquemático de contrastes.

Importante destacar que o próprio Knowles alterou ao longo do tempo sua orientação teórica quanto às distinções entre pedagogia e andragogia, tornando a dicotomia criança/jovem-adulto menos marcante. Argumentava ele que a pedagogia trabalhava mais o modelo baseado no conteúdo, ao passo que a andragogia privilegiava o contexto e o processo enquanto elementos centrais do processo ensino-aprendizagem. No decorrer de suas próprias experiências, Knowles conferiu cada vez mais peso à quinta característica acima descrita, ou seja, à motivação interna dos adultos para a educação como elemento central do processo e à possibilidade de que esse processo se daria enquanto educação continuada e ao longo da vida.

Assim, pedagogia está bastante associada à arte e ciência de educar crianças e jovens. Em geral – ainda que não necessariamente verdadeiro sempre –, no modelo pedagógico, a centralidade dos professores, enquanto dirigentes dos processos e metodologias, é quase absoluta. Contrariamente ao foco centrado no professor, que acabou por dominar boa parte dos processos formais de educação, na origem dos processos educacionais, remontando aos grandes mestres dos períodos antigos, de Confúcio a Platão, não se pretendia estabelecer esse padrão de comportamento.

Parte do “caminhar” na direção de centralizar o foco no professor, em detrimento dos estudantes, é debitada também ao ensino controlado pela Igreja, inclusive os calvinistas, os quais relacionavam o nível da sabedoria com maldade, demandando por parte dos orientadores mestres um controle bastante rigoroso.

Conseqüentemente, o controle dos adultos e dos mestres sobre o objeto da aprendizagem (conhecimento) permitiria garantir aos educandos, crianças e jovens em geral, o adequado nível de inocência. Assim, as escolas do século XVII, maioria delas formadores do corpo próprio da Igreja, privilegiavam um currículo centrado no professor, baseado em instrução autoritária, muitas vezes em oposição às raras tentativas de privilegiar experiências guiadas, centradas nos educandos.

De forma mais enfática, na pedagogia para adultos, os programas de formação demandam especial atenção para explicações de por que alguns conteúdos, bem como os procedimentos, estão sendo ensinados ou adotados. Não que tais demandas também não devam ou não possam fazer parte de ensino para crianças. Podem e devem, mas a questão aqui é de ênfase especial comparativa.Os procedimentos educacionais, sempre que possível, devem ser mais auto-orientados e menos baseados em processos de memorização.

Assim, as instruções, quando imprescindíveis, devem levar em conta as diversas experiências anteriores dos educandos no que se refere às variabilidades e profundidades diferentes. Considerando que os adultos, mais do que as crianças, em geral, apresentam características de auto-orientação, as metodologias adotadas devem permitir que os aprendizes descubram por si, sempre que possível.

Adultos demandam, de forma especial, estar claramente envolvidos nos processos de planificação, planejamento e avaliação das metodologias adotadas. As experiências, incluindo as discrepâncias associadas, devem fornecer as bases principais para as atividades de aprendizagem. Mais do que crianças, em geral, os adultos demonstram maior facilidade de aprendizagem em assuntos que têm, ou apresentam, conexões mais evidentes com os interesses imediatos de suas vidas pessoais ou de seu mundo do trabalho. O aprendizado de adultos demonstra ser mais efetivo quando centrado em problemas específicos e em conexão com o tema a ser abordado do que quando orientado pelo conteúdo mais geral associado ao tema em questão.

Ref.:

[1] Venport (1993), Jarvis (1977a) e Tennant (1996). Mark Tennant (1996), "An Evaluation of Knowles's Theory of Adult Learning," International Journal of Lifelong Education. 5:2, pgs 113-122. Jarvis, P. (1987a) 'Malcolm Knowles' em P. Jarvis (ed.) Twentieth Century Thinkers in Adult Education, London: Croom Helm.
[2] Jarvis, P. (1985) The Sociology of Adult and Continuing Education, Beckenham: Croom Helm.
(para maiores detalhes sobre este tema, leia os demais artigos ao final do blog)

segunda-feira, 30 de março de 2009










Príncipe Charles, Educação em UK e Casa Valduga


O Reino Unido (conhecido como UK, do inglês United Kingdon), que engloba Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, fica em uma ilha na costa noroeste da Europa continental. UK é formado basicamente da união de quatro nações: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

O sistema é parlamentar com sede de Governo em Londres, sendo uma monarquia constitucional, tendo a Rainha Elizabeth II como a chefe de estado. O Príncipe Charles, seu filho, é o herdeiro natural do trono, tendo estado no centro do mais famoso romance de amor contemporâneo, envolvendo Lady Diana e Camila. O amor, no caso, sem dúvida, entre Charles e Camila.

Pode parecer incrível, mas UK tem ainda quatorze territórios ultramarinhos, remanescentes do grande Império Britânico, o qual no seu apogeu chegou a deter mais de um quarto da superfície terrestre.

Os resultados desse que foi um dos maiores império de todos os tempos ainda se faz sentir nos dias atuais pelas fortes influências contemporâneas no idioma, na cultura, nos hábitos e nos costumes. Embora essa influência seja global, ela é mais fortemente presente na suas ex-colônias como Estados Unidos, Austrália, Índia e Canadá, entre tantos outros.

UK, ainda que tenha sido a principal potência mundial durante o século XIX, ainda hoje é a sexta economia do mundo e detém o quinto maior PIB do planeta. A sua força remanescente tem muito a ver com sua sólida educação em todos os níveis.

Educação é obrigatória dos 5 aos 16 anos de idade, através de escolas financiadas pelo governo ou particulares, sendo que estas últimas se caracterizam pelo boarding school (os alunos residem e estudam na escola), enquanto as primeiras são basicamente day school (alunos estudam durante o dia e retornam diariamente para casa, como usual no Brasil).

O período anterior à idade escolar regular, dos 3 aos 5 anos, não faz parte da educação obrigatória e há uma variedade de figuras que cumprem este papel específico. Há os serviços denominados childcare, os quais são regulados pelos órgãos do Governo, podendo ser realizados por profissionais independentes como babás. Nanny é a categoria de babá que cuida da criança na casa desta, como auxiliar na presença dos pais ou enquanto estes estão fora de casa. Au pair é a categoria de babá que, diferentemente da Nanny, reside com a família da criança. Childminder, por sua vez, é a categoria de babá que atende as crianças em sua própria casa, podendo atender um número de crianças dependendo de seu treinamento e das condições da casa. As childminders podem atender crianças desde os três meses de idade até a adolescência, dependendo da formação profissional recebida. Há também o serviço de Day Nursery (berçário), que são instituições privadas que atendem crianças dos seis meses aos três anos. Recentemente a legislação sofreu uma alteração que assegura o direito das crianças a uma vaga no sistema público de ensino a partir dos 3 anos e nove meses.

A educação primária, que compreende dos 5 aos 11 anos, é dividido em duas etapas, conforme a faixa etária: i) dos 5 aos 7 anos, centrado no ensino da Língua Inglesa e Matemática; e ii) dos 7 aos 11 anos, com ênfase em Matemática, Língua Inglesa e Ciências.

A educação secundária compreende dos 11 aos 16 anos, também dividido em duas etapas: i) dos 11 aos 14 anos, depois dos quais o aluno faz a avaliação nacional em Matemática, Língua Inglesa e Ciências; e ii) dos 14 aos 16 anos, depois dos quais o aluno faz a avaliação nacional estudam para obter o certificado geral da escola secundária (GCSE). A diferença, em relação à educação primária, é que os estudantes cursam uma série de disciplinas obrigatórias, incluindo Design e Tecnologia, Tecnologia da Informação e Comunicação, Educação Religiosa, Orientação Vocacional e Educação Sexual. Há também disciplinas eletivas, escolhidas a partir dos interesses, preferências e habilidades individuais dos alunos, incluindo, entre outras, História, Geografia, Artes, Música, Administração, Assistência Social e Saúde, Lazer e Turismo.

Aos 16 anos, findo o período obrigatório de estudo, podem os estudantes partirem para o trabalho, se for o caso. Aqueles que optam por continuar seus estudos, partem para o nível chamado de educação adicional, que vai dos 16 aos 18 anos e compreende a formação profissional direcionada para o curso de graduação ou a carreira profissional que o aluno pretende seguir.

Após a educação adicional, os alunos prosseguem seus estudos através de cursos profissionalizantes ou no ensino superior. Quanto ao ensino superior, desde 2003 os estudantes experimentam novas regulamentações em todo Reino Unido. Quanto ao acesso, cabe às instituições de ensino superior a tarefa de decidir seus sistemas de ingresso, cabendo a elas definir os critérios seletivos de admissão em termos de rendimento acadêmico. O objetivo do governo é ampliar o acesso justo e isto contempla uma política de preços das universidades.

No que diz respeito à pesquisa, em 2004 o Governo publicou um plano de investimento de dez anos para a ciência e a inovação. Antes da presente crise mundial, que pode alterar esta tendência, o Governo fez um investimento no duênio 2007-2008 de 1 bilhão de Libras, valor bastante superior ao investido em 2004-2005. Este investimento, bem como sua provável continuidade, assegurará a qualidade e sustentabilidade dos programas de pesquisa nas mais diversas áreas.

Bem, na semana passada, o Brasil teve o prazer de receber o Príncipe Charles e a Duquesa Camila, os quais tinham praticamente uma agenda associada ao tema ecologia. Foram recebidos na Embaixada Britânica em Brasília, onde, a convite do British Council tivemos a oportunidade de compartilhar alguns momentos. Um dos destaques interessantes é que boa parte da bebida servida na recepção, de vinhos a espumantes, era da Vinícola Casa Valduga, o que nos fez sentir saudades e orgulho da produção gaúcha com qualidade internacional.

segunda-feira, 16 de março de 2009




PALESTRAS "A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO-TECNOLÓGICO" E OS 24 ANOS DO MCT


O começo da década de 1980 presenciou intenso movimento em favor da criação de um Ministério específico para a área de Ciência e Tecnologia. O candidato a presidente Tancredo Neves, em meados daquela década, comprometeu-se com a idéia. O presidente José Sarney, uma vez empossado, honrado o compromisso de Tancredo, materializou o compromisso estabelecido com toda a comunidade científica.

Renato Archer, um dos líderes pelo movimento da criação, foi então, com muita justiça, nomeado o primeiro ministro da pasta. Duas unidades passaram de imediato a ser vinculadas ao ministério, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em 1990, o presidente Fernando Collor extinguiu o MCT e implantou a Secretaria da Ciência e Tecnologia, ligada à Presidência da República, sendo que dois anos depois, o presidente Itamar Franco editou outra medida provisória que voltou a criar o ministério, que permanece como pasta da área até hoje.

Assim sendo, após tantas idas e vindas, o agora consolidado em definitivo Ministério de Ciência e Tecnologia completa 24 anos neste mês de março e para comemorar o aniversário do MCT fui convidado a apresentar duas Palestras sobre o tema A Construção do Conhecimento Científico-Tecnológico.

O tema é tratado em caráter introdutório, via uma abordagem histórica, em nível acessível a todos, podendo ser de especial interesse aos que trabalham na área de Ciência e Tecnologia, em todos os seus abrangentes aspectos. Desde as primeiras formas de organização social do homem é possível identificar a sua constante tentativa de compreender o mundo que o cerca e a si mesmo. Denominamos genericamente de ciência, ou de seus primórdios, àqueles conhecimentos resultantes das inúmeras tentativas de entender e explicar a natureza de forma analítica e sistemática. Muito embora, no sentido estrito e rigoroso, ciência, que faz uso do método científico, só possa ser assim denominada a partir dos conceitos e atitudes dos cientistas do séc. XVII, período simbolicamente demarcado por Galileu Galilei.

Na primeira palestra (16 de março), as origens da ciência são apresentadas e as principais contribuições debatidas acerca do período que se inicia nas sociedades primitivas, passando pela Grécia Antiga e a Idade Média, até a Renascença, culminando com a consolidação das bases do Método Científico em Galileu.

Na segunda palestra (18 de março), o amadurecimento do método científico é abordado através da figura de Isaac Newton, que curiosamente nasce praticamente no mesmo ano que morre Galileu. Em seguida, serão analisadas as relações entre conhecimento e produção nos séculos seguintes, até o papel específico e determinante da ciência, tecnologia e inovação na sociedade contemporânea, incluindo as contribuições dos pensamentos dos grandes filósofos da ciência, entre eles Popper, Khun e Feyerabend.

domingo, 15 de março de 2009



AULA MAGNA NA UFG

Sempre tive muita simpatia pela Universidade Federal de Goiás. Não faltam motivos. Para citar um adicional, ela é irmã quase gêmea da Universidade Federal de Santa Maria, minha instituição.
Ambas nasceram quase juntas, sendo que a UFG foi criada no dia 14 de dezembro de 1960 com a reunião de cinco escolas superiores que existiam em Goiânia: a Faculdade de Direito, a Faculdade de Farmácia e Odontologia, a Escola de Engenharia, o Conservatório de Música e a Faculdade de Medicina. A partir de então, Goiás libertou-se da dependência em formar profissionais em escolas públicas em outras regiões. Foi um marco e continua sendo na história do Estado de Goiás.
Atualmente, seguindo os passos dos seminários iniciais que lhe deram origem, com a presença de Darcy Ribeiro e outros, pratica um ensino dinâmico e seus grupos de pesquisa estão cada vez mais e melhor consolidados.
Tive a oportunidade esta semana de ministrar a Aula Magna, por ocasião do início das atividades didáticas deste semestre, bem como de conversar, em outro período, com os pesquisadores da instituição.
Na Aula Magna tive o prazer de conhecer o Dr. Heitor Rosa, Diretor da Faculdade de Medicina da UFG, uma das cinco melhor avaliadas escolas de Medicina no último ENADE em todo país. Além disso, Dr. Heitor é profundo conhecedor de história da Medicina, com quem muito pudemos conversar sobre vários temas, inclusive sobre a final da Idade Média e a Renascença (tema também da Aula Magna).
Saber que a UFG está mais do que dobrando sua capacidade de atendimento na graduação, tanto na modalidade presencial como a distância e que sua pós-graduação atende a ritmo mais acelerado ainda é realmente uma grande alegria.
Nada disso seria viável sem as ousadias e competências, na mesma medida, da excepcional equipe comandada com muito brilho pelo Reitor Edward Madureira Brasil.
Um prazer saber que o Centro-Oeste e o país dispõem de instituições como a Federal de Goiás, capazes mesmo de, conjunta e solidariamente, enfrentar quaisquer desafios, sem medo dos problemas que vem juntos quando desbravamos novos caminhos.

segunda-feira, 9 de março de 2009





























AULA MAGNA NA UFS E APRENDIZAGEM IDEM

Ronaldo Mota


A Universidade Federal de Sergipe (UFS) teve seu início, enquanto Universidade, durante a década de 1960, resultado de iniciativas anteriores que datam da década de 1920.

Na verdade, hoje a instituição poderia denominar-se Universidade de Sergipe, dispensando o sobrenome do meio, dado sua afinidade e compromisso com o Estado. Não há tema de desenvolvimento estadual que não seja assunto de sua alçada e não há, igualmente, solução que não conte com sua participação solidária.

Mais recentemente, especialmente através dos Programas Universidade Aberta do Brasil (UAB) e Reestruturação Acadêmica e Expansão das Universidades Federais (REUNI), tem sido possível à UFS mais do que dobrar suas vagas e propiciar cursos em áreas estratégicas, inexistentes até então.

O Reitor, Prof. Josué Modesto, é um dos mais renomados economistas do país, profundo conhecedor de história econômica, matéria imprescindível para entender o contexto da crise atual. O Vice-Reitor, Prof. Ângelo Antoniolli (comigo na foto ajudando carregar o peixe), um cientista na área de farmacologia com visão empreendedora singular, em conjunto com equipe administrativa competente e harmônica, compõem a receita para uma universidade de sucesso, como tem sido observado na prática por todos naquela unidade da federação.

Tive o prazer de ministrar a Aula Magna da UFS por ocasião dos inícios das atividades acadêmicas deste ano, especialmente aos estudantes recém-ingressos dos turnos diurno e noturno. Em ambos os períodos, deparei-me com calouros muito interessados no tema do método científico e a evolução histórica ao longo dos caminhos da humanidade. Caminhos que passam pelo Australopithecus, Homo habilis, Homo erectus, Homo neanderthalensis e Homo sapiens sapiens, bem como nosso berço maior da civilização ocidental: a Grécia Antiga (ver figuras acima).

Não sei se consegui ensinar tudo o que pretendia, mas aprendi muito no final de semana posterior. Aprendi muito, particularmente no contato com a natureza. Existe uma região, próxima com a divisa com a Bahia (Mangue Seco, mais exatamente), próximo à localidade de Estância, onde braços do mar adentram o território sergipano, formando um eco-sistema de manguezal admirável.

Aprendi (comecei a aprender) o papel do mergulho na observação daquilo que de fora não é visto na riqueza do fundo daqueles cursos d’água. Pescamos na medida de nossa capacidade de comer, preservando o equilíbrio natural. Mesmo assim, os peixes são enormes.

Com o apoio do mergulhador Misso (pescador nativo) pudemos escolher a dedo (que aperta o arpão) um peixe (garoupa) fantástico de 45 Kg (ver fotos). Fantástico ver charéus de quase um metro de comprimento cercando cardumes de curimãs (tainhas para os do sul). Um ambiente inigualável em beleza.

Aprende-se muito, especialmente a diversidade do Brasil e sua riqueza humana, podendo conviver com pessoas da mais alta qualidade e espírito humano solidário e adoradores da confraternização. Vivendo e aprendendo, ensinando quando possível.

domingo, 1 de março de 2009






AS MÚLTIPLAS COMPETÊNCIAS DO EDUCANDO CONTEMPORÂNEO




Ronaldo Mota

Jose Ortega y Gasset, pensador espanhol, fez uma surpreendente comparação ao destacar a semelhança entre as dificuldades em modificar uma universidade e mover de endereço um cemitério. A analogia, segundo ele, é que os que lá residem ajudam pouco nas mudanças.

De fato, no que concerne às aulas tradicionais, pouco ou nada tem se alterado ao longo de décadas. O mundo extra-educação tem se alterado com rapidez e profundidade absurdas, enquanto as metodologias educacionais adotadas têm se mantido essencialmente as mesmas.

O que esperar de um profissional, egresso de um curso superior, é tudo menos o mesmo, se compararmos décadas atrás com os tempos atuais. Um grande complicador é que o que se espera atualmente, em termos de competências, inclui os requisitos de ontem, demandando novos atributos sem abrir mão dos anteriores. Um resumo de todas as mudanças está na diferenciação entre competência técnica e competências múltiplas.

Houve um período que era quase suficiente o domínio de um conjunto razoavelmente delimitado de conhecimentos, associado a um elenco restrito de técnicas e procedimentos básicos contidos nos currículos padrão definidos para cada profissão. Cumpridos os créditos previstos, estava o formando preparado para aprender mais no exercício profissional, completando sua formação. Era dessa maneira pela simples razão que funcionava. O dilema atual é que simplesmente não funciona mais.

A radicalidade das mudanças necessárias invade todos os aspectos e ambientes, incluindo o espaço físico. No entanto, a sala de aula é sempre a mesma e reproduz e reforça o padrão do bom comportamento desejável do estudante calado. Sentado em fileiras, invariavelmente bem separadas e organizadas tal que, dispostos um atrás do outro, estejam maximamente distanciados. Preparados para copiar a fala do professor e estudar depois, tal como previsto e apregoado. O espaço organiza a não interação, o não discurso entre os pares, em total não sintonia com o mundo do trabalho em que os estudantes, no futuro, estarão imersos em suas vidas profissionais.

Em complemento à competência técnica, existem múltiplas habilidades a serem desenvolvidas e estimuladas. Entre elas, destaco a competência emocional, a capacidade de trabalhar em equipe e a vivência em laboratórios no enfrentamento de situações problemas, elementos em geral inexistentes, ou pouco explorados, nos currículos típicos.

O aspecto comportamental é absolutamente crucial quando um profissional depara-se com um problema inédito, um tema inovador ou tecnologias recentes. Se ao longo do período escolar, o qual é rigorosamente infindo, essas emoções, que preparam para enfrentar desafios, não foram trabalhadas, este suposto cidadão, ainda que dominando as técnicas convencionais, terá enorme chance de fracasso.

Outra capacidade associadas às novas competências é o trabalho em equipe. No passado recente os exercícios profissionais eram atos majoritariamente isolados, à semelhança dos processos avaliativos típicos, onde a relação básica era entre um problema discreto e um indivíduo. No futuro próximo, a imensa maioria dos desafios, em qualquer profissão, envolve um grupo de atores e um somatório de questões complexas e inter-relacionadas.

Não é mais aceitável que a preparação para ambientes tão distintos, o passado e o futuro, seja a mesma. No entanto, em que pesem boas iniciativas recentes, em boa parte das práticas educacionais, os processos avaliativos ainda baseiam-se em relações simples e singulares entre um educando isolado e um problema discreto e dissociado.

A competência de liderança dos estudantes, a capacidade de tomar iniciativa, a habilidade gerencial, a valorização do potencial criativo e da sensibilidade quanto ao ambiente em que estão imersos são atributos que raramente estão presentes nas avaliações, tanto de ingresso como de saída, dos estudantes de graduação.

O papel síntese das experiências em laboratórios, o incentivo aos trabalhos em grupo, a valorização do hábito de estudar antes das aulas, o estímulo à criatividade e o despertar da sensibilidade que reconhece no outro, e em si mesmo, as qualidades, peculiaridades e limitações são práticas pouco, ou nada, exercitadas nas metodologias clássicas adotadas.

Para tratar do avesso do avesso, insisto que nada disso isenta a necessidade de profundo conhecimento dos aspectos técnicos específicos (capacidade técnica). Os estímulos às novas competências não menospreza o conhecimento tradicional e mesmo os procedimentos padrão de avaliação. Não se trata de substituir, mas sim de agregar. Ensinar não ficou mais simples, transformou-se em mais complexo, como a vida e o mundo do trabalho que nos cerca.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009










EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA E CRISE MUNDIAL


(Versão "ligth". Para detalhes, veja próximo texto mais completo)

Ronaldo Mota

“Crise é a benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite. É na crise que nascem invenções, descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina. Sem crise não há méritos. É na crise que aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la. Acabemos com a única crise realmente ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la". (Albert Einstein)

A educação superior e suas instituições de ensino se caracterizam, sobretudo, por serem complexas e diversificadas. Da mesma forma, a crise atual está longe de ser de simples compreensão.

A crise financeira em curso pode engendrar ou não uma crise econômica global, com maior ou menor relevância, durando um tempo mais breve ou mais duradouro.

Todas as instituições de ensino superior podem ser imediatamente afetadas. Tanto as públicas por novos arranjos nos orçamentos, que demandam ações das áreas de planejamento público, bem como as do setor privado, à medida que restrições de crédito e alterações de perfis das camadas sociais de sua clientela são elementos que impactam as suas perspectivas para os anos vindouros.

De acordo com o Censo INEP/2007, coleta envolvendo 2.281 instituições, é registrado que, quanto à categoria administrativa, do total de instituições pesquisadas, 2.032 (correspondendo a 89%) são do setor privado e 249 (11%) são de natureza pública. No setor privado, mais de três quartos são particulares e as demais (em torno de ¼) são comunitárias, confessionais ou filantrópicas.

São 23.488 cursos de graduação presencial, 3.702 de educação tecnológica e 408 na modalidade educação a distância. O número total de matrículas resultou 5.250.147, sendo 4.880.381 na graduação presencial, 369.766 em graduação a distância e 347.857 em graduação tecnológica.

O crescimento destacável na modalidade a distância reflete as políticas aplicadas com sucesso nos anos recentes. A modalidade a distância que representava 1% das matrículas em 2004, agora já são expressivos 7% e crescendo a passos acelerados.

Dos 4.880.381 estudantes presenciais, 1.240.968 estudam em instituições públicas (615.542 em federais, 482.814 em estaduais e 142.612 em municipais) e 3.639.413 em instituições privadas, correspondendo respectivamente a 25,4% e 74,6%. Quanto à organização acadêmica, do total de estudantes, 2.644.187 (54%) estudam em universidades, 680.938 (14%) em centros universitários e 1.555.256 (32%) em faculdades.

Em termos de matrículas globais na graduação, envolvendo as duas modalidades, a taxa de escolaridade bruta (% de matrículas comparadas com a população jovem entre 18 a 24 anos) ultrapassou 20%, sendo a taxa líquida (considerando somente matrículas de jovens) ficou em pouco mais de 12%. Números muito distantes do previsto (30%) no Plano Nacional de Educação para o final desta década.

Uma interessante observação desses números é que mais de 40% de nossos estudantes universitários têm 25 anos ou mais. Em geral, tem emprego, são casados, tem filhos e oriundos de famílias de classe média, predominantemente baixa.

Quanto ao gênero de nossos estudantes, 56% são mulheres e 44% do sexo masculino. Tal dominância, progressivamente, esta se reproduzindo também nos demais níveis de ensino, mestrado e doutorado.

Dados do questionário sócio-econômico preenchido pelos estudantes realizando os ENADEs 2005-2006 mostram que uma importante modificação acerca dos meios de comunicação preferidos pelos concluintes. Enquanto a internet em 2002 era a opção de menos de 10%, em 2006 assim responderam 42%. Neste ritmo, não resta dúvida que encerraremos a década tendo a internet como principal meio de informação.

Esses dados todos conduzem à necessidade cada vez maior de abordagens andragógicas, entendidas como estímulo às novas metodologias e a busca por abordagens inovadoras.

Há que se notar que o principal público que nos últimos anos estava, de forma diferenciada, começando a procurar com mais intensidade o ensino superior era aquele proveniente das classes C e D. Isso é verdadeiro tanto no setor público em expansão, notadamente as universidades federais, como no setor privado.

Entender como a crise implicará em novos contornos não é tarefa simples, ainda que necessária. Dois elementos são cruciais: 1.possível aumento do desemprego e maior competitividade pelos postos de trabalho, bem como alterações do mundo do trabalho e 2. necessidade de agregar mais tecnologias em todos os processos, inclusive educacionais.

Acerca do primeiro, não há elementos disponíveis para uma previsão segura acerca da intensidade de desemprego adicional no Brasil, mas é certo que o ritmo de exigência de qualificação de mão de obra será intensificado, fazendo com que os que já estão trabalhando enxerguem, cada vez mais, na Educação o principal instrumento de manutenção ou obtenção de espaços no mundo do trabalho.

Sobre o segundo elemento crucial, incorporação de tecnologias inovadoras, a crise atual só fará acelerar ainda mais a competitividade em todos os setores, especialmente na formação de recursos humanos, por agregar novos conteúdos tecnológicos.

Enfim, o estudante que chega à universidade, cada vez mais, não é somente aquele jovem, quase adolescente, que recentemente completou o ensino médio e quase precocemente definiu por esta ou aquela futura profissão.

O perfil predominantemente adulto desse novo público, com suas características específicas, demanda naturalmente novas metodologias, abordagens didáticas diferenciadas que levem em conta processos ensino-aprendizagem próprios da andragogia que reconhece o andros (homem, em geral, no caso significando adulto, em grego), em contraposição aos métodos pedagógicos e a paidós (criança, em grego).

Na andragogia substitui-se o perfil do aluno tradicional pelo novo estudante. Enquanto o denominado bom aluno de antigamente estuda, especialmente, depois que o professor ensina em sala de aula, na andragogia esse modelo dá espaço a uma nova concepção, espacial e temporal, de estudante fortemente induzido a preparar-se para uma nova dinâmica de sala de aula.

Na abordagem inovadora, dos estudantes é exigido um preparo anterior à ocorrência dos momentos presenciais em sala de aula. Para tanto, além de outras inovações decorrentes, faz-se necessário que material didático seja disponibilizado de forma apropriada e nos momentos adequados.

Nesse novo contexto, a aula expositiva muda de característica, devendo o professor saber que fala para iniciados, priorizando reforço de conceitos já preliminarmente assimilados, promovendo atividades laboratoriais/experimentais, desafiando os estudantes para um debate mais profundo e participativo.

De fato, caminhamos, de forma acelerada, em direção a uma educação flexível, onde as boas características de ambas as modalidades, presencial e a distância, poderão ser contempladas simultaneamente e de forma, muitas vezes, complementar.

Nas décadas anteriores a formação em graduação nas diversas carreiras do ensino superior consistia basicamente em dotar os futuros formandos de um conjunto razoavelmente bem definido de conhecimentos específicos próprios de cada profissão.

Além disso, na visão anterior, priorizava-se o desempenho individual, nas abordagens contemporâneas o trabalho em grupo ocupa espaço preferencial, estimulando trabalhar em equipe e o desenvolvimento coletivo.

O espaço de aprendizagem tipicamente delimitado pela escola espalha-se pelo não-espaço que contempla o ambiente doméstico, incluindo o do trabalho e o caminho de um para outro. De fato, estamos diante de um novo paradigma espaço-temporal, sem limites de qualquer natureza, nem no tempo como no espaço. Assim, sem prejuízo das especificidades do ambiente escolar, o ensino rompe barreiras e não aceita fronteiras, incorporando todos os possíveis e imagináveis nichos e a todos podemos proclamar espaços e tempos de aprendizagem.

O universo da andragogia, da educação permanente ao longo da vida, a inundação da aprendizagem ocupando a todos os possíveis espaços e a concepção de que todos seremos estudantes para sempre estão em perfeita coerência com a predição de Albert Einstein que um dia ousou definir que Educação é aquilo que fica quando esquecemos o que nos foi ensinado.